domingo, 5 de setembro de 2010

O Azul



Existir em palavras é uma coisa que incomoda, as vezes. Como permanecer durante muito tempo sob o sol... queima...

É por isso que escrever exaspera. É uma consciência de existir que sufoca, como se eu fosse obrigado a fazer sentido a todo momento, ou a fazer sentido em algum momento da minha vida. Escrevo, não pelas ideias que vou formulando, mas pela beleza dos sons e dos ritmos das palavras irem formando ideias. 

As ideias se abandonam. Logo ao serem formuladas já não são nossas ideias, outros leitores as devoram e as vomitam contra nós, como os dejetos sociais de um crime mal executado. Os sons e os ritmos não, eles permanecem independentes de sentido, são belos e só. Tudo o que basta.

A beleza das palavras pode suplantar as ideias. O que o bom orador faz, senão hegemonizar as ideias com o uso de belas palavras?

De tudo que vem dos homens desconfio...

O mundo é feito de belos sofismos!

Me abandono a frases desprovidas de sentido:

Perco o azul do dia ao fim da tarde,
atravesso a noite de Cardinale
e com mais dois passos mal dados
me afogo malfadado no espaço

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