terça-feira, 1 de junho de 2010

Renato Russo para mudar a sua vida, em 4 temas


Em tempos de escuridão em que não há fé em si mesmo e nos outros, algumas pessoas brilham de forma especial e conseguem ser uma referência para toda uma geração. Renato Russo é uma dessas raras pessoas com um olhar crítico, versos concisos, uma depressão intíma latente e uma inexplícavel fé no potencial da juventuda para promover a mudança social que ansiosa nós, brasileiros, esperamos.

Suas canções são trilhas sonoras de importantes momentos de reflexão e amadurecimento. Entre acordes dissonantes e muito barulho, a voz grave e melodiosa destilava filosofia e poesia, numa perfomance epilética, catartica como poucos artístas brasileiros ousaram ser no palco. Renato é um dos grande exponenciais da música brasileira e merece ser conhecido por todos, muito além das canções mais tocadas. São em algumas das musicas mais desconhecidas que se encontram assuntos importantes. Listo abaixo algumas das minhas canções preferidas correlacionadas a 4 temas:

Política. "Que país é este" é uma das músicas de protesto mais conhecidas da Legião, entretanto é em "A canção do senhor da Guerra" que encontro algumas das críticas mais contundentes e atemporais, independentes de a qual país ou cultura ela se dedica, porque se foca na crítica a ânsia dos dirigentes mundias em acumular poder, jogando com as vidas de jovens que batalharam nas suas guerras como peões de xadrez. É uma das suas músicas menos conhecidas, mas mais interessantes. Direcionada aos jovens, ela é uma provocação sobre refletir sobre as lutas políticas do mundo e as guerras armadas pelos seus dirigentes, ironizando o discurso doutrinador dos senhores da guerra: "Existe alguém que está contando com você pra lutar em seu lugar, já que nessa guerra não é ele que vai morrer" e "Veja que uniforme lindo Fizemos prá você Lembre-se sempre Que Deus está Do lado de quem vai vencer" são belas estrofes da música que exemplificam bem essa questão.


Drogas. Apesar de recluso, Renato, ao seu jeito, era exagerado, puro drama italo-latino regado a copos de requeijão cheios de conhaque e muitas drogas. "A Montanha Mágica" é uma das canções emblemáticas que marcam essa relação de extrema dependência e destruição: "minha papoula da índia, minha flor da tailândia, és o que tenho de suave e me fazes tão mal". É uma canção hermética, fechada, com frases desconexas e arrastadas. Provavelmente aqueles que nunca experimentaram alguma droga são capazes de passar despercebidos por ela sem perceber a tenção angústiante de adorar aquilo que nos faz mal, e isto ser o único remédio para a própria doença. Ela é linda e triste. Poeticamente ele descreve os picos, o frenesi do uso, e a ressaca moral: "existe um descontrole que corrompe e cresce", " o que fizemos de nossas própias vidas". Em contraponto "A montanha mágica" alguns anos depois, após passar por uma internação numa clínica de reabilitação ele compõe "Vinte e Nove", canção que conta sobre a redescoberta da vida sem as drogas.

Sexo. É um tema recorrente, como não poderia deixar de ser no rock, muito se fala sobre as citações a bissexualidade como em "Meninos e Meninas" e muito se fala também sobre "Maurício", embora Renato em vida tenha dito que a última canção nada fala sobre o tema. Mas, é em "Daniel na cova dos leões" que Renato aborda o sexo e a sua homossexualidade de forma subliminar, ardilosa, e liguisticamente excitante, sobrepondo as palavras vertinosamente no arfã das sensações do pós-gozo: "Aquele gosto amargo do seu corpo ficou na minha boca por mais tempo, de amargo então salgado ficou doce, assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços e ainda é leve e forte, cego e tenso, fez saber que ainda era muito e muito pou", Neste primeiros versos, Renato descreve a sensação do gosto do esperma de um outro rapaz em sua boca. Ainda numa entrevista em vida Renato afirma que assumiu a sua bissexualidade principalmente para que a pessoas possam entender o que ele canta. Sobre a homossexualidade: "faço nosso o meu segredo mais sincero e desafio o instinto dissonante".

Depressão. Todo o "A tempestade", seu último disco em vida, é marcado por uma sombra de profunda tristeza. Não há muito como ser diferente, pois foi gravado em seus últimos meses de vida, os quais Renato passou trancado dentro do seu apartamento no Rio de Janeiro. "Via Láctea" é uma preciosidade entre essas canções. Com um otimismo triste se pede apenas para ter a oportunidade de se afogar na própria auto-piedade: "é só hoje, e isso passa. Amanhã é um outro dia, não é?". "Longe do meu lado" segue a mesma linha falando das relações amorosas: "se as paixões fossem realmente um balsamo o mundo não pareceria tão equivocado".

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